quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Aniversário de Sofia

"Todos nós somos borboletas..."

Esse foi o primeiro pensamento de Sofia ao abrir os olhos. Antes de dormir, havia relido um trecho do seu livro favorito: Borboletas sem Jardim.

"...Voando por ai. Assustando uns, encantando outros..."

Ela suspirou e fechou os olhos. Suspirou outra vez. Estava silencioso. A janela aberta e poucos raios de sol iluminavam o quarto. Ouviu-se um terceiro suspiro. Dessa vez, mais profundo.

"...Alguns são futuras borboletas. São lagartas nojentas ziguezagueando por ai..."

O despertador tocou. O sol despertou um pouco mais. Sofia levantou, arrumou a cama e, com passos preguiçosos, foi banhar-se.

"...E existem as que ainda estão dentro do casulo. Ou tentando sair."

Ela se encarou no espelho embaçado pelo vapor da água. Enrolou-se na toalha e voltou a se encarar. Tentando ver seu reflexo ficar mais nítido conforme o vento fresco equilibrava a temperatura ali dentro.

"Quando uma borboleta está saindo do casulo..."

Ela continuava com o pensamento no seu livro de cabeceira.

"...Ela tem que sair de lá sozinha. Se fizerem o esforço em seu lugar, ela morre logo depois já que não saberá voar."

Seus olhos estavam fixos no próprio olhar. Um ano havia sido se passado. Nada havia melhorado. Tudo continuava confuso. E Sofia estava cansada de acumular simples e pequenas decisões erradas. Como ficar até mais tarde vendo um filme ruim e ir trabalhar cansada no dia seguinte.

- Vamos lá! - ela disse para si mesma esboçando uma curva nos lábios. - Melhora essa cara. Hoje é dia de sorrisos e abraços.


- Parabéns, Sofia! - o porteiro disse assim que ela saiu do elevador.
- Obrigada, Rodrigo.


- Feliz aniversário. - o motorista do ônibus desejou.
- Esse ano você lembrou! Obrigada.


- Parabéns pra você nesta data querida... - a cantoria começou antes que ela subisse as escadas para o escritório. Ela respirou fundo, ajeitou o terninho preto, sorriu e continuou a subir os últimos degraus. O barulho do salto fino sendo abafado pelas vozes agitadas.

Os próximos minutos foram de abraços, felicitações e desejos como dinheiro, paz, saúde e o da realização dos sonhos. Era esse que ela não gostava de ouvir. Só a lembrava que havia perdido mais um ano em um ciclo vicioso de perder os dias por desânimo e medo de sair do seu casulo.

Antes de sair de casa, Sofia fez um único pedido de presente: que as horas não se arrastassem. Que o dia passasse rápido. Mas seu pedido não foi atendido.

Cada minuto parecia o fim do mundo. Cada hora, uma pessoa passava e a parabenizava. Desejando as mesma coisas que as outras.

"Se existisse um CD com o título "Feliz Aniversário", seriam 22 faixas repetidas", ela pensou e se detestou por alguns segundos por não estar comemorando um dia considerado importante.

O que deveria ser oito horas pareceu durar dezesseis, mas o final do expediente chegou.

Assim que colocou os pés em casa, sentiu o celular vibrando na bolsa. O nome no visor a fez sorrir espontaneamente pela primeira vez no dia.

- Oi, mamãe. - ela falou tirando os sapatos e fechando a porta.
- Feliz aniversário, minha flor.
- Obrigada, mamãe...
- Dessa vez meu presente vai ser um pedido.
- Você sempre indo contra o "padrão". - Sofia riu e jogou-se no sofá. - Pode pedir. Eu só vou ganhar mesmo.
- Quero que você releia o livro que te dei ano passado: "Borboletas sem Jardim". E coloque um lembrete no espelho do banheiro, na porta do guarda roupa e na geladeira com a frase final.
- "A transformação é um processo constante que não para nem após a morte." - elas falaram juntas e riram.
- Mãe, obrigada por salvar o dia outra vez.


PS.: O livro "Borboletas sem Jardim" não existe. E ele parece bem auto-ajuda. Não sei se leria mesmo gostanto tanto do tema "transformação" e o significado do processo da borboleta e tal.
PPS.: Não. Não é sobre mim. A Sofia não é uma versão fictícia da Anna.

2 comentários:

  1. Lindo teu modo de escrever. Adorei o conto e o final lindo que deste! Uma frase bem verdadeira, pra ser lembrada sempre! beijos,chica

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Ei, muito obrigada pela visita! :D Comentários são sempre bem vindo, então não se acanhe! Fique à vontade para opinar, mas cuidado com a falta de respeito, ok?! Mais uma vez: obrigada! :)

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